sábado, 20 de setembro de 2014


O PRECONCEITO VELADO E O “MA-CA-CO” SEM SOM

Rosilda Mara Rodrigues Moroso – Psicopedagoga

Crônica publicada no Jornal Diário de Notícias de Criciúma/SC em 09/09/2014


Muitas pessoas dizem que não tem preconceito, que até tem amigos (as) negros (as) e/ou gays, parece que estão fazendo favor, ter estas pessoas no seu círculo de amizade. Mas o pior mesmo quando alguém diz: “aquela pessoa é negra, mas tem alma branca”; Este tipo de preconceito velado, ainda é pior do que aquele que é explícito e que às vezes não sai som, como a moça gritando no estádio de futebol: ma-ca-co, dito em sílabas bem pronunciadas, para ser entendida no bom português, para todos “ouvirem” e o mundo todo ouviu e muita gente não gostou!
Os valores e os bons costumes saíram de moda e já faz tempo. Agora é a violência do “bateu, levou” que é bem diferente do “dar a outra face”.
 A questão da homofobia, onde as pessoas dizem: eu aceito a homossexualidade, desde que... Ou seja, sempre tem um desde que, não vejo, não seja na minha frente ou na frente das crianças, e assim por diante.
O que se ouve por ai, é que a sociedade mudou, mas a sociedade é feita de pessoas e quem muda são as pessoas, e em pleno século XXI, temos que fazer leis, para poder garantir o direito do outro, pois a Declaração dos Direitos Humanos, presente no mundo todo, a mais de sessenta anos, parece que não deu conta disso.
A tecnologia com todos os seus problemas éticos, tem servido para a reflexão na sociedade atual, porque as leis por si só não dão garantias para ninguém, tem que ter imagem de fotos ou filmes, gravações e outros recursos tecnológicos, para poder provar que houve preconceito, discriminação, intolerância ou ainda racismo.
A palavra humana parece que tem validade apenas na tradição oral, lá no continente africano, bem longe. Mas tão perto de todos nós! O fato de que muitas pessoas acham que nós humanos, descendemos do macaco não é realidade, mas que a África é o berço da humanidade, a ciência não tem dúvidas.
Os primeiros humanos surgiram no continente africano, onde foram encontrados os fósseis mais antigos de primatas do planeta, lá aparecerem os primeiros bípedes, alguns se extinguiram, mas outros sobreviveram. É desses grupos que surge, graças às mudanças evolutivas, a espécie humana atual.
Estes nossos “parentes”, viveram em cavernas, comendo vegetais até descobrirem o fogo, foram se adaptando as condições climáticas, disputando alimentos e água e vivendo em conflitos, assim como na atualidade: “quem pode mais, chora menos”.
Estes homens criaram invenções de pedra para sua sobrevivência. E hoje, muita gente joga pedra nas pessoas, tem gente que pega a pedra e faz uma invenção e tem gente que prefere jogar pedra, através de palavras e todo tipo de xingamento, para ferir e mostrar que é diferente. Diferente do que? De quem? Se todos, viemos do mesmo grupo e se Deus disse que somos semelhantes, quem tem o direito de atirar a primeira pedra?
 Os nossos ancestrais (africanos) eram nômades e viajaram pelo mundo. Os cientistas afirmam que esta migração aconteceu também para fora do continente africano, pouco a pouco, foram se misturando e originando outros povos, surge aí o Homo sapiens.  E tem gente criando preconceitos com os ganeses que estão chegando, eles vão se misturar também, constituir famílias e a cidade vai mudar o seu censo de povo “descendente de europeus”. E daí? Todos gostam de feijoada, samba, carnaval e danças, quem trouxe estas culturas para nós brasileiros natos?
Se nós somos humanos, deveríamos ter Humanidade, nos relacionado bem com todas as diversidades, com todas as culturas e etnias. Somos um Brasil da cor negra, amarela e branca, desta mistura se deu o “homem/mulher brasileiro (a)”.

Para combater o racismo no país, foi necessária a criação da lei 11645, que estabelece as diretrizes para a inclusão obrigatória do tema: “História e Cultura Afro-brasileira e indígena” no currículo da escola, para que desde pequena, a criança na sala de aula e na sociedade, aprenda a conviver com as diferenças e saiba respeitar todos os seres humanos, sem distinção. Mas precisamos de professores comprometidos com esta temática, para que ninguém mais neste país coloque fogo num índio dormindo na praça ou que chame de “macaco” os seus semelhantes.